terça-feira, 14 julho , 2026

O governo Bolsonaro, as ciências sociais e a educação

Rodrigo Augusto Prando
Cientista Político e professor da Universidade Presbiteriana Mackenzie

Ogoverno Bolsonaro apresenta visão estreita e, pior, equivocada do campo da educação brasileira, mormente na área de estudos das Humanidades e das Ciências Sociais. Já nos primeiros discursos na condição de presidente, houve abundante e raso uso do conceito de ideologia e, obviamente, da ideia forçada de que a educação brasileira apresenta índices vergonhosos por conta da ideologia esquerdizante que paira sobre as universidades. O ataque, portanto, seria em dois fronts: extirpar o marxismo cultural (termo vago, impreciso mesmo) e Paulo Freire, importante educador nacional e de expressão internacional por conta de seus trabalhos.
A reação dos jornais e revistas, principalmente, foi intensa em relação às afirmações de que a Filosofia e a Sociologia deveriam receber menos recursos do governo e que a intenção era investir em áreas que “gerem retorno imediato ao contribuinte, como veterinária, engenharia e medicina”, afirmou Bolsonaro nas redes sociais, citando o ministro da Educação Abraham Weintraub. Essa afirmação, por si só, é falaciosa, duplamente. Em primeiro lugar, o jovem que decide estudar Filosofia, Sociologia ou qualquer outro curso das Humanidades é, também, contribuinte, pagador de impostos, bem como são seus pais. Assim, nesse caso, já há patente ilegalidade e elementos contrários ao espírito republicano, de igualdade perante a lei, de tratamento impessoal por parte do administrador público. A outra falácia é fazer a sociedade crer que os gastos com esses cursos sejam altos.

Em “Como Bolsonaro vê a educação”, publicado no Estadão, em 04/5/2019, pode-se citar esse trecho, à guisa de esclarecimento: “De 1.283.431 alunos de graduação das universidades federais, apenas 25.904 estão cursando filosofia ou sociologia. Estas duas áreas mantêm 66 programas de mestrado e doutorado nas universidades federais, o que representa apenas 2,5% do total de programas de pós-graduação nestas instituições. Em matéria de financiamento, os projetos de sociologia e filosofia recebem apenas 1,4% do total dos financiamentos do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq)”. Eis, aqui, o busílis da questão: o ataque não é no campo quantitativo e sim qualitativo. Não é quantidade de recursos investidos que gera tal ação de estrangulamento e sim os aspectos atinentes à produção científica crítica, que desnuda discursos políticos que não condizem com a realidade dos fatos. Nestas plagas, o conceito de pós-verdade fincou raízes profundas e é, cotidianamente, compartilhado nas redes sociais para que a sociedade, já de poucos leitores, se deixe seduzir pelo discurso oficial, porém, errado.

Noutro episódio, o ministro Weintraub asseverou que haveria “contingenciamento” de recursos para universidades que promoveriam “balbúrdia” (entendia como festas, manifestações artísticas e políticas). Novamente, desconhecimento e pós-verdade: a liberdade de expressão, bem como a autonomia das universidades são garantidas por lei. Depois da fala e da indignação que causou, o MEC indica que o corte não seria apenas para as instituições da “balbúrdia” e sim para todas as Federais. E, não faz muito, a comunidade acadêmica recebe a notícia de que bolsas de pós-graduação – mestrado, doutorado e pós-doutorado – também serão suprimidas. Não nos enganemos. O ataque não se restringe às Humanidades, mas à educação brasileira, em suas várias dimensões.

Simon Schwartzman, sociólogo e especialista em educação, aduziu em seu artigo “A era das Ciências Sociais”, publicado na Revista Veja, em 08/05/19, que: “A hostilidade manifestada pelo governo contra a área de ciências sociais parece explicar-se por uma combinação de desconhecimento dos números e da natureza da área social aliado a um preconceito de tipo ideológico – a sociologia e a filosofia seriam focos de ideologias marxistas, que precisariam ser extirpadas. Quem conhece de perto essas áreas de estudo, no entanto, sabe que o marxismo ocupa nelas um lugar bastante reduzido, embora persista, de forma simplificada, em alguns setores e nas manifestações de movimentos políticos ligados ao setor de educação – nada muito diferente do que se dá no resto do mundo. A preocupação com os problemas de pobreza, desigualdade social, direitos humanos e discriminação social faz parte do patrimônio humanístico contemporâneo, diz respeito a temas centrais a uma sociedade tão desigual como a nossa e independente de filiação a esta ou aquela corrente filosófica, sociológica, jurídica ou econômica. E a melhor maneira de reduzi-las é trabalhar para que estes problemas deixem de existir”.

O Brasil está em posições vergonhosas no PISA (aferindo Ciências, Matemática e Leitura), ou seja, nossa educação vai mal – e vai mesmo – não por conta da existência de Paulo Freire, de Sociologia, de estudos de gênero, etc. Nossa educação ostenta índices desgraçados em todas as áreas: Humanidades, Exatas e Biológicas. Somos, ainda, o último colocado numa pesquisa entre 35 países em relação ao prestígio do professor, com dados de 2018, apresentados pela Varkey Foundation. No ranking de produtividade, o país está na 50ª posição em relação a 68 economias analisadas, segundo estudo da FGV. Quando nos afastamos da superficialidade ideológica propagada pela retórica governamental, podemos verificar que os problemas na educação brasileira não se limitam à universidade ou a cursos específicos. É um problema global: em todas as instâncias do ensino e as consequências são verificáveis na mão de obra ofertada no mercado de trabalho.

Bolsonaro e parte de seus ministros assumem, prioritariamente, uma pauta ideológica que agrada assaz os bolsonaristas, num anti-intelectualíssimo evidente. Numa saraivada de fake news e pós-verdades objetiva-se sufocar o senso crítico, a ciência e a educação. Não conseguirão, por certo. Retrocessos deverão ocorrer e com aplausos, infelizmente, de muitos membros da comunidade acadêmica. Todavia, políticos, sejam quais forem, estão “no” poder, mas não são “o” poder.

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